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domingo, 18 de abril de 2010

O Surgimento da Filosofia.


Grafite de Gustavo Cortelazzi.
"Os primeiros filósofos gregos"
Os primeiros filósofos gregos tentaram entender o mundo com o uso da razão, sem recorrer à religião, à revelação, à autoridade ou à tradição. Além disso, também eram professores que ensinavam seus discípulos a usar a razão e a pensar por si mesmos. Eles os encorajavam a discutir, argumentar, debater e propor ideias próprias.
Tendo vivido entre o século 6 a.C e princípios do século 5 a.C., esses filósofos mais antigos, dos quais poucos conhecimentos foram conservados através dos tempos, são também chamados de pré-socráticos, por que antecederam Sócrates, o primeiro filósofo cujo método de pensar, bastante sistemático, foi efetivamente preservado para a posteridade.
Não se pode, porém, deixar de examinar, ainda que brevemente, o pensamento dos pré-socráticos. Ainda que só nos restem fragmentos de suas ideias, elas são surpreendentes. E não só por constituírem uma grande novidade para a época em que elas foram formuladas, mas também porque muitas delas ou conservam grande atualidade ou encontraram ressonância em filósofos de milênios posteriores, inclusive nossos contemporâneos.
Tales e Anaximandro
Para começar, pode-se mencionar Tales, da cidade de Mileto, na Ásia Menor (atual Turquia). As datas de seu nascimento e morte são ignoradas, mas sabe-se que ele atuou na década de 580 a.C. Tales de Mileto se perguntou: "De que é feito o mundo?". Chegou à conclusão de que ele era feito de um único elemento: a água. Afinal, todas as coisas precisam de água para viver, é a chuva que faz as plantas brotarem da terra e toda porção de terra termina na água.
Hoje sabemos que a resposta de Tales estava incorreta, mas não de todo. Na verdade, a física moderna chegou a uma conclusão semelhante à do antigo filósofo ao mostrar que todas as coisas materiais são redutíveis à energia.
Um discípulo de Tales, nascido na mesma cidade, Anaximandro (610 a.C.-546 a.C) desenvolveu outro raciocínio. Se a Terra fosse sustentada pela água, esta, por sua vez, deveria ser sustentada por outra coisa e assim sucessivamente, até o infinito. Disso, Anaximandro concluiu que a Terra não era sustentada por nada, mas um objeto sólido que flutuava no espaço e se mantinha em sua posição graças a sua equidistância em relação a tudo mais.
Heráclito e Pitágoras
Na mesma época, outro filósofo de outra cidade grega, Heráclito de Éfeso, desenvolveu dois raciocínios extremamente originais. Primeiro, a da unidade entre os opostos. Heráclito percebeu que o caminho para subir uma montanha é o mesmo para descer. Ou seja, trata-se de um mesmo caminho, embora ela conduza a direções opostas. A partir daí, o filósofo concluiu que a realidade surge justamente da contradição.
Por isso, a realidade é instável e está em constante movimento. "Tudo flui", dizia Heráclito. Com isso, queria dizer que nada é permanente. Ele comparava as coisas a uma chama que parece um objeto, mas é muito mais um processo. Para ele, portanto, a mudança é a lei da vida e do universo.
Pouco antes de Heráclito, outro filósofo também se destacava na cidade grega de Samos: Pitágoras. Supõe-se que ele tenha inventado o termo "filosofia", pois se definia como um amigo (filo) do saber (sofia). Com certeza, sabe-se que ele relacionou a filosofia à matemática, acreditando que a linguagem matemática poderia expressar com maior precisão as estruturas do universo.
Você tem dúvidas de que ele estava certo? Claro que não. A relação matemática/filosofia vingou, e chegou até física e aos filósofos contemporâneos como Bertrand Russell e Alfred Whitehead. Antes de seguir adiante, não se pode esquecer que Pitágoras é o autor do famosíssimo teorema que leva seu nome: num triângulo retângulo, a hiponenusa ao quadrado é igual à soma do quadrado dos catetos. Aliás, foi Pitágoras o inventor da ideia de "quadrado" e "cubo" de um número, traçando uma relação, até então inexistente, entre geometria e aritmética.
Xenófanes e Parmênides
Na última metade do século 6 a.C., pontificou outro grande filósofo: Xenófanes de Colofão. Para ele, o conhecimento é uma criação humana. Nós jamais conhecemos a verdade, mas vamos nos aproximando dela, à medida que aprendemos mais e vamos mudando nossas ideias, à luz do que aprendemos.
Nesse sentido, conhecer é fazer conjeturas que devem ser substituídas, quando se revelarem ultrapssadas. Essa ideia foi a chave que permitiu ao filósofo contemporâneo Karl Popper estabelecer os limites da ciência.
Na primeira metade do século 5 a.C., Parmênides, um discípulo de Xenófanes, desenvolveu uma reflexão contrária à de Heráclito. Parmênides considerou que é uma contradição afirmar que "nada existe". Para ele, tudo sempre existiu. O mundo, portanto, não tem princípio, nem foi criado: ele é eterno e imperecível. "Tudo é um", dizia Parmênides, e o que parece mudança ocorre, na verdade, no interior de um sistema fechado e imutável.
Empédocles e Demócrito
Sem discordar de Parmênides, Empédocles sustentava que tudo era composto de quatro elementos essenciais e perenes: terra, água, ar e fogo. Essa ideia influenciou o pensamento ocidental até o renascimento e a ideia dos quatro elementos é bastante conhecida ainda hoje, mesmo por quem não conhece história da filosofia.
Para terminar esse breve panorama do pensamento pré-socrático, é importante mencionar os filósofos Leucipo e Demócrito, chamados de "atomistas". Foram eles que teorizaram que se fôssemos reduzindo, por meio de cortes, qualquer coisa, chegaríamos a um momento em que a coisa estaria tão diminuta que não poderia ser cortada. Ou seja, chegaríamos ao átomo ("a" = prefixo de negação; "tomo" = cortar).
Segundo ambos, tudo que existe são átomos e espaço. As coisas são diferentes entre si por que são diferentes combinações de átomos no espaço. Mesmo que hoje saibamos que o átomo pode ser subdividido em partículas menores do que ele mesmo, não há como negar o avanço da concepção de Leucipo e Demócrito, não é mesmo?
Enfim, os pré-socráticos refletiram sobre a natureza do mundo procurando explicá-lo a partir de sua própria natureza e, se muito do que pensarem pode ser considerado um absurdo hoje em dia, seu pensamento inegavelmente foi o ponto de partida para o entendimento racional do mundo.

Sugestão de leituras:-
- "O mundo de Sofia - romance da história da filosofia", de Jostein Gaarder (Companhia das Letras) é uma história da filosofia escrita especialmente para adolescentes. Quem quiser se aprofundar pelo tema, lendo um livro breve e muito atualizado, pode ler "Paixão pelo Saber - uma Breve História da Filosofia", de Robert C. Solomon e Kathleen M. Higgins (Civilização Brasileira.

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