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quarta-feira, 21 de abril de 2010

Sensibilidade

A crise da sensibilidade
Negar as próprias limitações traz ao homem problemas como a depressão, o maior mal do século. Blaise Pascal torna-se atual na superação da crise da sensibilidade, pois foi o primeiro a buscar interação entre emoção e razão

Por Rodrigo dos Santos Mazano


Marco Aurélio, imperador romano que foi um dos expoentes do estoicismo. Essa corrente filosófica defende que o homem deve agir de acordo com a razão e ser indiferente aos problemas

A verdadeira compaixão e solidariedade, que deveria tocar os seres humanos diante da morte de outros semelhantes, dão lugar a um mero conformismo, que muitas vezes até justifica tais mortes dos mais diversos modos. Parece que a indiferença defendida pelos estoicos chegou ao seu ápice, ao ponto de se manifestar pela própria vida. Também vemos tal dificuldade na relação interpessoal no crescimento dos índices de “relacionamentos virtuais”. Uma das consequências do racionalismo foi o mecanicismo, no qual os próprios seres humanos caíram. Vemos isso de maneira plena na quantidade de pessoas que se relacionam com outras através de uma máquina, o que pode ser visto como um avanço da comunicação e da diminuição nas fronteiras do mundo, mas que distancia as pessoas do contato verdadeiro, dando a impressão de que o orgânico vai sendo substituído pelo mecânico. Estes casos exemplificam a insensibilidade na qual vem se aprofundando o rol das relações humanas e distanciando as pessoas reais, revelando o quanto o lado emocional é relegado a segundo plano.
SHUTTERSTOCK
Crianças famintas na Somália. O culto à razão leva a humanidade a promover muitos avanços, mas relega o homem real, admitindo mazelas sociais como a fome e a desigualdade

Por outro lado, nunca se acreditou tanto na superioridade do homem. A razão humana chegou a um número de conquistas, principalmente nos dois últimos séculos, até então nunca visto antes. Tal fato leva a uma crença quase inquestionável no ser humano, na Ciência e na razão, que acentua ainda mais a insensibilidade. Esta crença parece confirmar Descartes e o estoicismo, elevando o racionalismo e mais uma vez criando a ilusão de que as emoções não são importantes, são questões secundárias no desenvolvimento da raça humana. Crê-se no Homem, uma ideia de humanidade superioridade do homem. A razão humana chegou a um número de conquistas, principalmente nos dois últimos séculos, até então nunca visto antes. Tal fato leva a uma crença quase inquestionável no ser humano, na Ciência e na razão, que acentua ainda mais a insensibilidade. Esta crença parece confirmar Descartes e o estoicismo, elevando o racionalismo e mais uma vez criando a ilusão de que as emoções não são importantes, são questões secundárias no desenvolvimento da raça humana. Crê- -se no Homem, uma ideia de humanidade, mas deixa-se de lado os homens, seres humanos reais, que muitas vezes sequer têm condições de desenvolver o mínimo de sua capacidade racional, pois mesmo com tantos avanços, a humanidade ainda não superou problemas básicos, como a fome, o analfabetismo, a distribuição desigual de renda entre outros.
Diante do número de informação e realizações com as quais o homem está obrigado a conviver, torna-se um desafio refletir sobre a sua existência

Esses fatos ajudam a diagnosticar uma falta de rumo na existência dos seres humanos. Diante do número de informações e de realizações com as quais se está obrigada a conviver, qual o caminho a ser tomado, qual rumo seguir? Assim, torna-se um desafio refletir sobre sua existência e olhar para si de uma maneira holística, podendo realmente reconhecer quais são seus anseios. Fatores tão característicos de nossa época, como o consumismo e a globalização, geram maior confusão, e ao mesmo tempo em que se prega o individualismo exacerbado, a tomada de decisões por conta própria, cada vez mais as pessoas se veem uniformizadas pelas redes da “ditadura da moda” e pelos padrões de beleza vigentes. Assim, sem perceber, a pessoa se vê buscando aquilo que é de sua vontade, mas não pára para refletir se aquilo realmente é de sua vontade interna ou se esta vontade lhe é sugestionada, advinda dos diversos formadores de opinião, na busca pela felicidade. Tal fato, não surpreendentemente, leva o homem a um vazio, e este a problemas muito hodiernos, como a depressão e estresse. O primeiro deles é tão grave que ganhou o status de “mal do século XXI”, já que, segundo os índices da OMS, atinge cerca de 121 milhões de pessoas em todo o mundo. Tais fatos, que nos parecem tão atuais, já de alguma forma eram contemplados por um filósofo do século XVII, contemporâneo e também rival de Descartes, Blaise Pascal.


A RIVALIDADE ENTRE GÊNIOS

Pascal foi um dos maiores gênios das ciências de sua época. Aprendeu sozinho a Geometria e aos dezoito anos criou a primeira calculadora da história. Tais dotes o opuseram a outro gênio contemporâneo e colega de seu círculo de discussões, o pai do racionalismo, René Descartes (1596- 1650). Os dois eram membros do cenáculo científico do Padre Mersenne, em Paris, a futura Academia das Ciências de Paris. Assim, a oposição evidente de seus sistemas filosóficos, apesar de filhos de uma mesma época, também se fazia perceptível na vida dos dois.

Em um dos trechos de sua obra máxima, o Pensées (Pensamentos – obra póstuma de Pascal, que, na verdade, era a tentativa de um discurso apologético ao cristianismo e que foi reunida e publicada em 1669, sendo estruturada em aforismos), Pascal dizia sobre Descartes “Escrever contra os que aprofundam demais as ciências. Descartes. Não posso perdoar Descartes; bem quisera ele, em toda a sua filosofia, passar sem Deus, mas não pôde evitar de fazê-lo dar um piparote para pôr o mundo em movimento; depois do que, não precisa mais de Deus. Descartes: inútil e incerto”.

DECARTES VERSUS PASCAL

Pascal e Descartes são dois racionalistas, mas de vertentes diferentes. Descartes, importante na formação do pensamento moderno e da Ciência, para formular o racionalismo começa duvidando de tudo – como dos sentidos, que são enganadores. Só não duvida de que duvida de tudo e, assim, chega ao famoso “Cogito, ergo sum”. Ou seja, “Penso, logo existo”, pois ao duvidar ele tinha a certeza de que era um ser que pensava. A partir desse ponto inicial desenvolve todo um método, baseado apenas na razão, para provar a existência do homem e do mundo exterior. Já Pascal leva em conta tanto a racionalidade quanto a dimensão afetiva. Ele afirma que o coração tem razões que a própria razão desconhece, criticando o pensamento cartesiano, visto como muito “geométrico”.

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