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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O que é a Filosofia





 
O QUE É FILOSOFIA?

Historicamente, o primeiro pensador grego a usar a palavra filosofia foi Pitágoras de Samos no Século VIII ac. E desde então se levantou uma das mais profundas discussões de todo o pensamento humano, pois todas as demais questões se ressumem a esta: O que é a Filosofia?
Esta afirmação se consolida quando vemos a tentativa dos Filósofos em conceituar a Filosofia, partindo daí para criar os seus próprios conceitos filosóficos, bem como sua visão de mundo.
Etimologicamente, a palavra Filosofia é composta de dois radicais gregos: Filo - amigo ou amante. Aquele que deseja e se compromete afetuosamente e incondicionalmente a outrem em atitude de amor e lealdade. Sofia – sabedoria. A sabedoria para o grego era algo divino, que era revelado aos mortais pelos deuses.  A sabedoria não era adquirida por mérito, mas por dádiva dos deuses.
Segundo Pascal filosofia é paixão, haja vista que o filósofo antes de tudo é um amante da sabedoria. “Toda atitude humana, inicialmente é passional. O que move o mundo não é a razão, mas a paixão, como já dissera o velho Pascal, de que o coração tem razões que a própria razão desconhece. (apud Souza, 1995, p. 67).
Em seguida passamos para uma análise um pouco mais pontual, em que podemos entender a filosofia como algo enigmático, profundamente abstrato e distante da realidade. Essa visão da filosofia decorre dos complexos trabalhos de pensadores que, ao longo da história, refletiram e buscaram diferentes respostas sobre questões que continuamente fazemos ao longo de nossa existência. Indagações sobre o conhecimento, sobre os valores, sobre a natureza, sobre a beleza, sobre o homem. Essas inquietações decorrem da necessidade que todo ser humano tem de compreender o significado do mundo e de si mesmo.

Na busca dessa compreensão criamos novos significados, questionando e tecendo uma teia de relações cada vez mais abrangentes que nos indiquem respostas, mesmo que provisórias. Desta forma, o primeiro passo para a filosofia é a inquietação que conduz ao questionamento.

FILOSOFIA PARA ou COM CRIANÇAS

A princípio, quando pensamos em trabalhar Filosofia com crianças, esta idéia nos causou certo receio. Mas, como trabalhar Filosofia com crianças, sendo elas tão pequenas?
Iniciamos então uma série de estudos para por em prática esta idéia, e, amparados por Matthew Lipman, concluímos que era possível trabalhar filosofia com crianças desde a Educação Infantil.
É muito comum ouvirmos a argumentação que quando a Filosofia é ensinada através do diálogo investigativo, como é proposto no Programa de Filosofia para Crianças e, especialmente, quando os estudantes ainda são crianças, a tendência é que eles saiam de seus cursos mais críticos, mais criativos e mais sensíveis ao contexto em que vivem.
O programa Filosofia para crianças tem inicio no final da década de 60, quando o Professor norte-americano Dr. Matthew Lipman, preocupado com o desempenho insuficiente de seus alunos, concebeu o Programa Filosofia para Crianças, visando cultivar o desenvolvimento das habilidades cognitivas mediante discussões de temas filosóficos e visando, com tais discussões, as iniciações filosóficas de crianças e jovens.
O pensar é recurso humano imprescindível, tanto para a produção de explicações, quanto para a constituição dos sentidos. Exercitá-lo, no enfrentamento das questões envolvidas na busca da construção de significados, pode resultar no seu próprio aprimoramento. E tal aprimoramento ocorrerá se o exercício do pensar merecer atenção e cuidados especiais por parte dos educadores e dos próprios educandos.

Assim como os filósofos, as crianças se perguntam sobre os fundamentos dos valores e dos conhecimentos humanos. Propiciar o processo de investigação filosófica de forma sistemática com crianças é fornecer as ferramentas e um método eficiente para aperfeiçoar o pensamento, pois é na filosofia que se edificam as questões sobre o significado da realidade e sobre o próprio processo do pensar. (LIPMAN, 1995, P. 98)

A meta, segundo Lipman, é desenvolver as habilidades cognitivas dentro de um contexto significativo e não de forma fragmentada e automatizada. Este procedimento foi possível vivenciar durante a prática de ensino realizada na Educação infantil e Séries Iniciais em escolas públicas do município de Tijucas, onde, procuramos trabalhar a Filosofia de maneira interdisciplinar.
Ao realizar-se as atividades com os alunos, possibilitou-se o questionamento, observação, investigação, argumentação, classificação, descrição, verificação, enfim atividades que os alunos participavam em todos os momentos. Desenvolvendo assim sua criatividade, imaginação e raciocínio lógico. Para o envolvimento total dessas crianças o recurso utilizado foi o diálogo, papel fundamental neste contexto.
O diálogo que, por um lado, motiva o exercício de um pensar criterioso, criativo, autocorretivo, sensível ao contexto e, por outro, ensina o exercício de cidadania enquanto respeito ao outro, às opiniões divergentes, à diversidade cultural.





O DIÁLOGO COMO BASE

O diálogo não é uma invenção de nosso tempo e nem é mérito do programa de Filosofia com crianças. Desde os gregos eles se firmam como um importante instrumento no processo do fazer filosófico e na prática educativa. A figura de Sócrates é emblemática nessa atitude de compreender a formação humana e o ato de educar como sendo um permanente exercício dialógico.

Entretanto o diálogo no processo do fazer filosofia com crianças ocupa um lugar especial. Lipman demarca uma posição enquanto mentor do programa com a tese de que a filosofia não é algo a aprender, mas a fazer, a praticar. Tal tese está ancorada na sua convicção de que esse fazer filosófico se realiza, fundamentalmente, pelo diálogo, já que é pela linguagem que a criança desenvolve sua capacidade para pensar. No dizer de Lipman:

Quando as pessoas se envolvem num diálogo, são levadas a refletir, a se concentrar, a levar em conta as alternativas, a enviar cuidadosamente, a prestar muita atenção às definições e as significações, a reconhecer alternativas nas quais não havia pensado anteriormente e, em geral, realizar um grande número de atividades mentais nas quais não teria se desenvolvido se a conversação não tivesse ocorrido (1994 p.44).   
 
Fica evidente que Lipman baseia em sua estratégia filosófica em Sócrates e Vygotsky. Para Vygotsky

O significado das palavras é um fenômeno do pensamento apenas na medida em que o pensamento ganha corpo por meio da fala e só é um fenômeno da fala na medida em que esta é ligada ao pensamento, sendo iluminada por ele. (1998, p.151)

Lipman é um neo-socrático, alguém que aposta no diálogo com as pessoas, que busca “fazer pensar”.
Segundo Souza, Lipman descobre em Vygotsky a construção social da mente:

(...)sua comunidade de investigação não é senão “uma estratégia de implantação de uma zona de desenvolvimento proximal discursiva, em que ao mesmo tempo que se raciocina, o raciocínio não é solitário nem autodidata; não há o aluno universal; há apenas o colega com quem se discutem os sentidos das coisas (1995, p. 130).


O PROGRAMA DE FILOSOFIA NAS ESCOLAS

O programa de filosofia para o Ensino Fundamental é novo no Brasil. Dos anos que está sendo divulgado, Santa Catarina participou ativamente desta história em seus 21 anos. Foi através do Centro de Filosofia “Educação para o Pensar” que se pode organizar o Programa de Filosofia elaborado pelo Professor Silvio Wonsovicz, em boa parte do território catarinense e, nesses vinte e um anos, expandir-se em forma de núcleos para todo o país.
O que chama a atenção é como o programa é construído, como o método se torna eficaz e de como ele se desenvolve nas aulas no ensino fundamental. Há dois enfoques: um reflexivo, com temas filosóficos sem que se caia no academismo ou no estudo dos filósofos e em seus pensamentos; outro dialogal, ressaltando a interdisciplinaridade, a convivência com os demais e exercitando o respeito pelas idéias alheias, demonstrando claramente que o que se quer com a filosofia é que através do envolvimento texto-tema, vida, reflexão e ação sejam um todo.
De forma geral a finalidade do programa Filosofia para Crianças na visão de Lipman, é:

(...) estimular crianças a pensar, desenvolver suas habilidades cognitivas para que raciocinem bem, envolve-las em diálogo disciplinado para que raciocinem juntas, desafia-las a pensar sobre conceitos significantes da tradição filosófica e ainda desenvolverem sua capacidade de pensarem por si mesmas para que possam pensar racional e responsavelmente quando confrontadas com problemas morais. (1990, p. 102)

Este é o individuo que pretendemos formar. A educação tem relevante papel na formação deste novo indivíduo. A simples transmissão de informações produzidas ao longo da história já não basta.
 Cabe à Educação dar os instrumentos necessários para que a partir do que já foi construído as pessoas possam elaborar novos conhecimentos, desenvolver seu potencial criativo, enfrentar novos desafios, relacionar as informações e tirar suas próprias conclusões.
Acreditamos que a filosofia tem como finalidade ensinar a pensar, e é dentro do espaço escolar, que ela terá maior entrada até por sua condição de contribuir para uma educação mais reflexiva. Será então cada vez mais necessária e o que pesará na vida das pessoas, a necessidade de aprenderem a pensar.
E é neste sentido que se destaca o programa de filosofia “Educação para o pensar”, com destaque para a comunidade de aprendizagem investigativa, símbolo de diálogo, socialização das idéias e intercâmbio entre os alunos. O núcleo aglutinador não se reduz ao professor como autoridade do saber ou das decisões, a autoridade não é mais privilégio dos professores, mas compartilhada com todos.
A discussão da maturidade infantil é um assunto muito forte provocando questionamentos: Qual é a idade correta para aprender?
O estudo do desenvolvimento do ser humano constitui uma área do conhecimento da Psicologia cujas proposições nucleares concentram-se no esforço de compreender o homem em todos os seus aspectos, englobando fases desde o nascimento até o seu mais completo grau de maturidade e estabilidade. Tal esforço, conforme mostra a linha evolutiva da Psicologia, tem culminado na elaboração de várias teorias que procuram reconstituir, a partir de diferentes metodologias e pontos de vistas, as condições de produção da representação do mundo e de suas vinculações com as visões de mundo e de homem dominantes em cada momento histórico da sociedade.
A revista VEJA (2002) publicou uma pesquisa onde defende o potencial que o cérebro da criança possui. Este mesmo artigo apresenta a teoria de que o cérebro da criança é receptivo ao aprendizado, citando inclusive pesquisa que confirma o desempenho cerebral e os estímulos externos estariam não no número de neurônios, “... mas na quantidade e na complexidade das conexões cerebrais”.  (FRANCO, 2002, p. 27).
Dentre as muitas teorias sobre o desenvolvimento humano destacamos inicialmente as teses de Jean Piaget, com sua visão interacionista, notadamente a relação de interdependência entre o homem e o objeto do conhecimento.
Piaget formula o conceito de epigênese, argumentando que o conhecimento não procede nem da experiência única dos objetos nem de uma programação inata pré-formada no sujeito.
 Quer dizer, o processo evolutivo da filogenia humana tem uma origem biológica que é ativada pela ação e interação do organismo com o meio ambiente - físico e social - que o rodeia, ou seja, existe uma relação de interdependência entre o sujeito conhecedor e o objeto a conhecer.
Esse processo, por sua vez, se efetua através de um mecanismo que consiste no processo de equilibração progressiva do organismo com o meio em que o indivíduo está inserido, qual seja a marcha do organismo em busca do pensamento lógico. Como lembra FREITAS (2000, p.17), "(...) a lógica representa para Piaget a forma final do equilíbrio das ações. Ela é um sistema de operações, isto é, de ações que se tornaram reversíveis e passíveis de serem compostas entre si'".
Piaget sustenta que a gênese do conhecimento está no próprio sujeito, ou seja, o pensamento lógico não é inato ou tampouco externo ao organismo, mas é fundamentalmente construído na interação homem-objeto. É de clareza solar que está implícito nessa ótica de Piaget que o homem é possuidor de uma estrutura biológica que o possibilita desenvolver o mental, no entanto, esse fato não assegura o desencadeamento de fatores que propiciarão o seu desenvolvimento, haja vista que este só acontecerá a partir da interação do sujeito com o objeto a conhecer.
Por sua vez, a relação com o objeto, embora essencial, da mesma forma também não é uma condição suficiente ao desenvolvimento cognitivo humano, uma vez que para tanto é preciso, ainda, o exercício do raciocínio. Por assim dizer, a elaboração do pensamento lógico demanda um processo interno de reflexão. Tais aspectos deixam à mostra que, ao tentar descrever a origem da constituição do pensamento lógico, Piaget focaliza o processo interno dessa construção.

O desenvolvimento humano, no modelo piagetiano, é explicado segundo o pressuposto de que existe uma conjuntura de relações interdependentes entre o sujeito conhecedor e o objeto a conhecer. Esses fatores que são complementares envolvem mecanismos bastante complexos e intrincados que englobam o entrelaçamento de fatores que são complementares, tais como: o processo de maturação do organismo, a experiência com objetos, a vivência social e, sobretudo, a equilibração do organismo ao meio. (FREITAS, 2000, p. 118)

Em face às discussões apresentadas acima, cremos ser lícito concluir que as idéias de Piaget representam um salto qualitativo na compreensão do desenvolvimento humano, na medida em que é evidenciada uma tentativa de integração entre o sujeito e o mundo que o circunda.
Resta saber, contudo, se o Programa Filosofia para Crianças é realmente viável para crianças e adolescentes. Lipman não apresenta nenhuma dúvida quanto à viabilidade do seu projeto. Em seu livro “A Filosofia na Sala de Aula” apresenta o seguinte raciocínio:

O objetivo de um programa de habilidades de pensamento não é transformar as crianças em filósofos, em tomadoras de decisões, mas ajudá-las a pensar mais, ajudá-las a serem indivíduos mais reflexivos, ajudá-las a terem mais consideração e serem mais razoáveis. As crianças que foram ajudadas a serem mais criteriosas não só tem um senso melhor de quando devem agir, mas também de quando não devem fazê-lo. (LIPMAN, 1994, p. 35)

Souza reforça esta questão e justifica com os dizeres de Tomás de Aquino o significado de educar e desde quando se pode iniciar uma educação humana:

“[...] partimos da apresentação de Santo Tomás que, desde os cinco anos, viveu toda a sua vida como estudante e professor. Para ele, o ensino não era apenas uma transmissão de conhecimentos, mas, sim formação integral da pessoa humana”.(SOUZA, 1995 p. 93). 

A filosofia começa quando começamos a investigar rigorosamente nossos valores, nossos conhecimentos, e a buscar significados para o mundo em que vivemos. É uma reflexão radical, pois o pensar ultrapassa os limites do senso comum. Em nossa sociedade nos acostumamos a aceitar conceitos e valores sem questioná-los ou investigá-los. As crianças trazem em si a vontade de descobrir, de entender o mundo. Ainda não se acostumaram com as "evidências do cotidiano".

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Os desafios encontrados neste artigo, sem dúvida, foram em ser necessário o “debruçar-se” sobre os mais variados filósofos que defendiam correntes até certo ponto antagônicas.
 Outro ponto importante foi à procura de como se deve fazer filosofia com crianças. A partir daí analogicamente ver se o que Lipman propõe pode ser chamado de filosofia.
A filosofia é uma ciência milenar e que ao longo dos tempos sofreu várias mudanças no método, na aplicabilidade e na conceituação; o que não mudou foi com relação ao objeto: “levar a pensar”.
Podemos observar no decorrer da pesquisa realizada junto aos alunos da Educação Infantil e das Séries Iniciais do município de Tijucas, que a Filosofia não tem um efeito imediato ou até uniforme nos seus resultados. Deve-se desatacar que além do conteúdo uma grande parcela do sucesso do programa está na condução pedagógica do professor.
Observando este aspecto nas aulas de filosofia, a postura pedagógica criativa do professor favorece maior assimilação por parte do aluno e, por conseqüência maior desenvoltura na prática diária dos temas. Maior poder de questionamento, mais argumentação, organização nas suas atividades, maior ponderação.
Comprovamos que é possível trabalhar Filosofia de maneira interdisciplinar, utilizando o diálogo como principal instrumento.
Temos consciência de que a filosofia não é a matéria que irá mudar ou transformar as crianças. Estaríamos redondamente equivocados se assim concluíssemos. A certeza é de que na vida social, intelectual e criativa da criança haverá mudanças significativas. O aluno torna-se mais questionador e, portanto com o passar do tempo sua estrutura mental tornar-se-á mais ordenada. Com esse início de pesquisa desenvolvida, podemos entender que a filosofia de fato é uma atividade mental, o seu maior potencial se desenvolve à medida que se avança na idade.
O homem é um eterno insatisfeito de sua condição. Às vezes, precisa de coragem para partir em busca de um sentido da sua vida e do mundo que o cerca. Neste momento a filosofia se torna antropologia, ou melhor, dizendo, a filosofia ascende à tarefa de gerar o homem. Para tal, é preciso coragem e rompimento com tudo que o impede de ousar. E a filosofia se torna a abertura para o pensamento autônomo, e para fazer-se isto, não é necessário esperar pela idade adulta para iniciar ao pensar. É como se quiséssemos formar um atleta somente após seus músculos serem desenvolvidos.
Amparados em Lipmam, (1994), Vygotsky (1998) e outros, adquire-se a certeza, que o desenvolvimento do raciocínio pode ser exercitado desde criança. Estaremos, assim, preparando o indivíduo autônomo para o amanhã. Este é o sujeito que estará mais atendo e mais ciente de seus limites e das próprias forças. Enfim, mais preparado para a maratona da vida, partindo de onde outros na sua idade estariam na chegada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FRANCO, Gustavo. Criatividade. Veja, São Paulo, n. 20, p. 26, nov. 2002.
FREITAS, Heloísa. O desenvolvimento infantil.  São Paulo: Martins Fontes, 2000.
LIPMAN, Matthew. O pensar na educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.
_____. Filosofia na sala de aula. São Paulo: Nova Alexandria, 1994.
______. A Filosofia vai à Escola.  São Paulo: Summus, 1990.
SOUZA, Nivaldo A. de. A Criança como pessoa na visão de Tomás de Aquino e de Matthew Lipman. Florianópolis: Sophos, 1995.
VYGOTSKY, Lev Seminovitch. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
WONSOVICZ, Silvio. Filosofia? Sim e para todos. Vol. Um da Coleção Conhecer para projetar o futuro. Florianópolis: Sophos, 2005.
_____________. Crianças, adolescentes e jovens filosofam. Vol. Dois da Coleção Conhecer para projetar o futuro. Florianópolis: Sophos, 2005.
_____________.  Programa educar para o pensar: Filosofia com crianças, adolescentes e jovens. Vol. Três da Coleção Conhecer para projetar o futuro. Florianópolis: Sophos, 2005.
















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segunda-feira, 26 de abril de 2010

Preserve o planeta!!!


Refletir é pouco, temos que agir.

"Penso, logo existo"

René Descartes e nem pensem em descartar...

Uma personalidade dominante da história intelectual ocidental, René Descarte foi um filósofo, fisiologista e matemático francês, nascido em 31 de março de 1596, em La Haye, na província de Touraine. Ele foi um contemporânero de Galileu e Pascal e portanto trabalhou sob as mesmas influências religiosas repressoras da Inquisição.

Cedo em sua vida, pouco após ter se alistado no exército, em 1617, Descartes descobriu que tinha talento para matemática, de modo que ele passou a maior parte de seus anos militares e subsequentes (ele pediu demissão quatro anos mais tarde) estudando matemática pura, especialmente geometria analítica, que tornou-se o campo ao qual fez suas maiores contribuições. Em 1626 ele se estabeleceu em Paris, mas foi persuadido a mudar-se para a Holanda em 1628, país que estava, então, no auge do seu poder. Ali ele morou e trabalhou pelos próximos 20 anos, devotando seu tempo e esforços ao estudo da matemática e filosofia, na perseguição da verdade. Em 1649, foi convidado para ser professor da Rainha Cristina da Suécia, mudando-se para Estocolmo, mas morreu poucos meses após chegar, de pneumonia aguda, em 11 de fevereiro de 1650.

Os trabalhos de Descartes em filosofia e ciência foram publicados em cinco livros: Le Monde (O Mundo), uma tentativa de descrever o universo físico, o Discours de la Méthode Pour Bien Conduire Sa Raison et Chercher La Vérité Dans Les Sciences (Discurso sobre o Método de Bem Conduzir sua Razão e Procurar a Verdade nas Ciências), seu trabalho mais importante; Meditationes, um sumário de suas idéias filosóficas em epistemologia, Principia Philosophiae (Princípios da Filosofia), cuja maior parte foi devotada à física, especialmente as leis do movimento, e Les Passions de L'ame (As Paixões da Alma), sua mais importante contribuição à fisiologia e à psicologia. As contribuições de Descartes à física foram feitas principalmente na óptica, mas ele escreveu extensamente sobre muitos outros temas, incluindo biologia, cérebro e mente. Ele não foi um experimentalista, no entanto.

O esteio da filosofia de Descartes pode ser resumida por sua famosa frase em latim: Cogito, ergo sum (penso, logo existo). Ele foi o primeiro a levantar a doutrina do dualismo corpo/mente, a propor uma sede física para a mente, e a maneira como ela se interrelaciona com o corpo. Portanto, ele discutiu temas importantes para as neurociências, que vieram a dominar os quatro séculos seguintes, tais como a ação voluntária e involuntária, os reflexos, consciência, pensamento, emoções, e assim por diante.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Reflexão sobre a vida.


Objetivos
Refletir sobre a passagem do tempo e a finitude da vida

Introdução
Meu amor, o que você faria se só te restasse um dia? Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria? Corria para um shopping center ou para uma academia? Para se esquecer que não dá tempo para o tempo que já se perdia?” Composta por Paulinho Moska, a música Último Dia toca numa questão fundamental para todos, pelo menos desde a era greco-romana: o que, de fato, confere valor ao tempo vivido?

Prova da persistência do sentimento de angústia pela brevidade da vida, o filósofo Sêneca, um dos grandes pensadores estóicos da Antiguidade, já havia constatado, mais de 2 mil anos atrás: “A maior parte dos mortais lamenta a maldade da natureza, porque já nascem com a perspectiva de uma curta existência e porque os anos que lhe são dados transcorrem rápida e velozmente”.

A sensação de que a vida é curta para alcançarmos tudo o que gostaríamos gera atitudes contraditórias: por um lado, instiga a vontade de fazer coisas grandiosas e memoráveis — como visitar o Taj Mahal, correr uma maratona ou pular de pára-quedas. Por outro, traz também desânimo pela impressão de que, por mais que realizemos, sempre restará algo imprescindível por concluir.
A esse respeito, Sêneca pondera: “Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiçada, se nenhuma obra é concretizada, se não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai”.

Discussão.

Sensibilidade

A crise da sensibilidade
Negar as próprias limitações traz ao homem problemas como a depressão, o maior mal do século. Blaise Pascal torna-se atual na superação da crise da sensibilidade, pois foi o primeiro a buscar interação entre emoção e razão

Por Rodrigo dos Santos Mazano


Marco Aurélio, imperador romano que foi um dos expoentes do estoicismo. Essa corrente filosófica defende que o homem deve agir de acordo com a razão e ser indiferente aos problemas

A verdadeira compaixão e solidariedade, que deveria tocar os seres humanos diante da morte de outros semelhantes, dão lugar a um mero conformismo, que muitas vezes até justifica tais mortes dos mais diversos modos. Parece que a indiferença defendida pelos estoicos chegou ao seu ápice, ao ponto de se manifestar pela própria vida. Também vemos tal dificuldade na relação interpessoal no crescimento dos índices de “relacionamentos virtuais”. Uma das consequências do racionalismo foi o mecanicismo, no qual os próprios seres humanos caíram. Vemos isso de maneira plena na quantidade de pessoas que se relacionam com outras através de uma máquina, o que pode ser visto como um avanço da comunicação e da diminuição nas fronteiras do mundo, mas que distancia as pessoas do contato verdadeiro, dando a impressão de que o orgânico vai sendo substituído pelo mecânico. Estes casos exemplificam a insensibilidade na qual vem se aprofundando o rol das relações humanas e distanciando as pessoas reais, revelando o quanto o lado emocional é relegado a segundo plano.
SHUTTERSTOCK
Crianças famintas na Somália. O culto à razão leva a humanidade a promover muitos avanços, mas relega o homem real, admitindo mazelas sociais como a fome e a desigualdade

Por outro lado, nunca se acreditou tanto na superioridade do homem. A razão humana chegou a um número de conquistas, principalmente nos dois últimos séculos, até então nunca visto antes. Tal fato leva a uma crença quase inquestionável no ser humano, na Ciência e na razão, que acentua ainda mais a insensibilidade. Esta crença parece confirmar Descartes e o estoicismo, elevando o racionalismo e mais uma vez criando a ilusão de que as emoções não são importantes, são questões secundárias no desenvolvimento da raça humana. Crê-se no Homem, uma ideia de humanidade superioridade do homem. A razão humana chegou a um número de conquistas, principalmente nos dois últimos séculos, até então nunca visto antes. Tal fato leva a uma crença quase inquestionável no ser humano, na Ciência e na razão, que acentua ainda mais a insensibilidade. Esta crença parece confirmar Descartes e o estoicismo, elevando o racionalismo e mais uma vez criando a ilusão de que as emoções não são importantes, são questões secundárias no desenvolvimento da raça humana. Crê- -se no Homem, uma ideia de humanidade, mas deixa-se de lado os homens, seres humanos reais, que muitas vezes sequer têm condições de desenvolver o mínimo de sua capacidade racional, pois mesmo com tantos avanços, a humanidade ainda não superou problemas básicos, como a fome, o analfabetismo, a distribuição desigual de renda entre outros.
Diante do número de informação e realizações com as quais o homem está obrigado a conviver, torna-se um desafio refletir sobre a sua existência

Esses fatos ajudam a diagnosticar uma falta de rumo na existência dos seres humanos. Diante do número de informações e de realizações com as quais se está obrigada a conviver, qual o caminho a ser tomado, qual rumo seguir? Assim, torna-se um desafio refletir sobre sua existência e olhar para si de uma maneira holística, podendo realmente reconhecer quais são seus anseios. Fatores tão característicos de nossa época, como o consumismo e a globalização, geram maior confusão, e ao mesmo tempo em que se prega o individualismo exacerbado, a tomada de decisões por conta própria, cada vez mais as pessoas se veem uniformizadas pelas redes da “ditadura da moda” e pelos padrões de beleza vigentes. Assim, sem perceber, a pessoa se vê buscando aquilo que é de sua vontade, mas não pára para refletir se aquilo realmente é de sua vontade interna ou se esta vontade lhe é sugestionada, advinda dos diversos formadores de opinião, na busca pela felicidade. Tal fato, não surpreendentemente, leva o homem a um vazio, e este a problemas muito hodiernos, como a depressão e estresse. O primeiro deles é tão grave que ganhou o status de “mal do século XXI”, já que, segundo os índices da OMS, atinge cerca de 121 milhões de pessoas em todo o mundo. Tais fatos, que nos parecem tão atuais, já de alguma forma eram contemplados por um filósofo do século XVII, contemporâneo e também rival de Descartes, Blaise Pascal.


A RIVALIDADE ENTRE GÊNIOS

Pascal foi um dos maiores gênios das ciências de sua época. Aprendeu sozinho a Geometria e aos dezoito anos criou a primeira calculadora da história. Tais dotes o opuseram a outro gênio contemporâneo e colega de seu círculo de discussões, o pai do racionalismo, René Descartes (1596- 1650). Os dois eram membros do cenáculo científico do Padre Mersenne, em Paris, a futura Academia das Ciências de Paris. Assim, a oposição evidente de seus sistemas filosóficos, apesar de filhos de uma mesma época, também se fazia perceptível na vida dos dois.

Em um dos trechos de sua obra máxima, o Pensées (Pensamentos – obra póstuma de Pascal, que, na verdade, era a tentativa de um discurso apologético ao cristianismo e que foi reunida e publicada em 1669, sendo estruturada em aforismos), Pascal dizia sobre Descartes “Escrever contra os que aprofundam demais as ciências. Descartes. Não posso perdoar Descartes; bem quisera ele, em toda a sua filosofia, passar sem Deus, mas não pôde evitar de fazê-lo dar um piparote para pôr o mundo em movimento; depois do que, não precisa mais de Deus. Descartes: inútil e incerto”.

DECARTES VERSUS PASCAL

Pascal e Descartes são dois racionalistas, mas de vertentes diferentes. Descartes, importante na formação do pensamento moderno e da Ciência, para formular o racionalismo começa duvidando de tudo – como dos sentidos, que são enganadores. Só não duvida de que duvida de tudo e, assim, chega ao famoso “Cogito, ergo sum”. Ou seja, “Penso, logo existo”, pois ao duvidar ele tinha a certeza de que era um ser que pensava. A partir desse ponto inicial desenvolve todo um método, baseado apenas na razão, para provar a existência do homem e do mundo exterior. Já Pascal leva em conta tanto a racionalidade quanto a dimensão afetiva. Ele afirma que o coração tem razões que a própria razão desconhece, criticando o pensamento cartesiano, visto como muito “geométrico”.

Materia nova!


HUMANINADE PERFEITA?

A crença na possibilidade de uma humanidade perfeita é algo muito antigo. Já Platão, com sua visão tripartite do homem, colocando o racional como o mais elevado no homem e os que se deixavam guiar pela reflexão como os superiores entre os humanos, abria o caminho para a “supremacia da racionalidade”. Porém, nenhuma corrente de pensamento na Antiguidade foi mais veemente na sua defesa da força do ser humano diante das adversidades que o estoicismo. Tal corrente, que teve diversas faces, desenvolvendo-se na Grécia e perpassando a cultura romana, a tal ponto de um de seus imperadores, Marco Aurélio, ter sido um dos maiores expoentes desta escola filosófica, baseava- se praticamente em único ponto, louvavelmente sintetizado por seu criador, Zenão de Cicio, (homologoúmenos tei physei zen – viver de acordo com a natureza). Tal corrente pregava uma grande indiferença aos diversos problemas que a vida podia trazer, elevando assim a grandiosidade do homem, que uma vez pautado pelo seu lado racional, pode se sentir ileso a qualquer problema da vida. Esta indiferença, no grego chamado ataraxia (ausência de preocupações, impertubabilidade), teve grande repercussão no mundo ocidental.

As ideias estoicas foram fortemente retomadas pela corrente racionalista, principalmente na estruturação de uma ética pessoal. A obra do filósofo René Descartes As paixões da alma faz uma forte apologia à indiferença, na qual cada ser humano deve se adaptar às vicissitudes que a vida propõe.

Podemos perceber essas tendências estoicas e cartesianas presentes na mentalidade geral em situações como, por exemplo, escolhas ou tomadas de decisão, nas quais as pessoas dizem: “preciso pôr a cabeça no lugar”. Esta frase traz um forte sentido racionalista, e se acredita que “esfriar a cabeça”, não deixar que emoções venham à tona em momentos difíceis, é o melhor a ser feito para não haver arrependimentos posteriores. Porém, tais fatos ainda não são propriamente negativos, embora idealistas, pois as decisões nunca são tomadas sem influência do emocional, mas sim carregadas de cunho afetivo. Os frutos mais complexos do racionalismo herdado de Descartes e do estoicismo são dois: a crença no superhomem e o desprezo pelas questões emocionais, gerando uma grande insensibilidade na humanidade, algo que explode de maneira alarmante em nosso tempo. Alguns exemplos gerais elucidam o exposto. Cada dia, nossos noticiários e periódicos trazem índices de mortes alarmantes, muitas vezes ocasionadas por motivos esdrúxulos e banais, reduzindo vidas a estatísticas. Tais índices mostram como desvalorizou-se a vida, tanto por aqueles que são agentes das notícias, assassinos, como por aqueles que as recebem. Salvo casos raros, que nos parecem muito bárbaros, e causam choque geral, o máximo que temos é uma relativa comoção que em nada nos toca realmente.

domingo, 18 de abril de 2010

Time - Pink Floyd

De Aristóteles ao Cristianismo.


Foto de Miro Martins.

Ceticismo, cinismo, estoicismo e epicurismo eram ramos de um único caudal filosófico, que contestava o idealismo de Platão e seu discípulo Aristóteles (personagens centrais de A Escola de Atenas, de Rubens).

Quase 2.500 anos depois, as escolas filosóficas que floresceram na Grécia Antiga estão de volta, reinterpretadas, influenciando pensadores e fazendo novos seguidores em todo o mundo.

Mas por que reinterpretadas? Porque, com o passar dos séculos, todas sofreram deformações que mudaram muito o sentido de seus conceitos. O cinismo, por exemplo, não tem nada de cínico ou vigarista: deve seu nome à praça de Cynosarge, em Atenas, onde se reuniam os adeptos da escola, na falta de um lugar construído para esse fim.

O epicurismo andou em moda no último pós-guerra por sua ideia de que felicidade é viver intensamente o presente, e foi o bastante para cair no gosto dos movimentos libertários da Europa e dos Estados Unidos, onde a geração beat começava a despontar. Mas o pensamento de Epicuro (341- 270 a.C.) não tinha nada a ver com o conceito de fruição e libertinagem, associado à sua filosofia pela turma da contracultura do século 20. No século 21, o epicurismo volta a seus termos de origem: a felicidade está, sim, em viver o presente, só que não na esbórnia, mas com disciplina e moderação.

E por que estão reaparecendo filosofias tão antigas? Uma resposta, simples e direta, é que o mundo ocidental cansou das filosofias modernas. É tudo muito complicado, muito difícil, polêmico, contraditório, compreensível somente por iniciados e, mesmo para eles, em boa parte ininteligível.

Quando vislumbram caminhos no meio do matagal, elas acabam levando a becos sem saída. E não dão tréguas à dor: são pessimistas, quase sempre niilistas e atormentadas pela falta de sentido da vida e da morte.

Não há nada disso em nenhum dos grandes autores das velhas fi- losofias. Epicuro, Diógenes, Zenon de Chipre, Pirro, Sêneca, Marco Aurélio (sim, o imperador romano), Epiteto e outros tinham em comum a clareza e a simplicidade de suas ideias, nem por isso ralas ou reles. Pensavam e ensinavam para as grandes massas. Mas com boa formulação e fundamentação.

A morte, por que temê-la? A vida nos deve inspirar mais cuidado do que ela, pois enquanto estamos vivos é que podemos fazer alguma coisa por nós. Se pouco ou nada fizermos, pouco ou nada seremos. Tudo o que somos devemos a nós mesmos, graças à vida que soubermos construir. Quanto à morte, ela é simplesmente o fim – e que mal tem isso, se a vida foi bem vivida?

E os deuses, por que temê-los? Pois os deuses, se existem, estão ocupados demais com os assuntos divinos para se interessarem pelos nossos. Portanto, não têm tempo nem interesse em nos julgar e, se não nos julgam, não nos condenam. Por outro lado, se os deuses não existirem, por que temer o que não existe?

O racionalismo dos epicuristas, estoicos, cínicos e céticos vai por aí e tem tudo a ver com o pensamento histórico europeu, de Descartes a Diderot ou Wittgenstein, de Schopenhauer a Martin Heiddeger, de Nietzsche a Jean-Paul Sartre e dezenas de outros pensadores. Mas, passe numa livraria em Paris e pergunte pelos filósofos mais vendidos na atualidade. Pensées pour moi-même é um best-seller, não traduzido para o português, mas que aqui poderia chamar-se “Meus pensamentos, por mim mesmo”. É de Marco Aurélio, imperador romano, nascido no ano 121 e morto em 180, depois de um reinado de 19 anos, dos quais passou 17 em cima de um cavalo em campanhas que expandiram ainda mais o vasto império que herdara.

Marco Aurélio era estoico e escreveu já na velhice. Em seu livro há uma cena em que um ancião obser va o campo de batalha de cima de uma colina e espera até o último momento por um gesto de paz do inimigo, que não acontece. Começa o combate e, ao cair da noite, a vitória está assegurada. Volta-se, então, para seu general, Máximo, e diz: “Quando um homem sente que seu fim está próximo, ele se pergunta se sua vida teve um sentido. Vou passar à história como um filósofo, um guerreiro ou um tirano?” Dois mil anos depois, Marco Aurélio é festejado pela primeira alternativa. Seu livro faz companhia às Cartasde Sêneca, ao Manual de Epiteto, estoicos como ele, e às obras de outros pensadores da Antiguidade, dessas e de outras escolas.

Saber o que podemos fazer e o que não podemos, o que cabe a nós e o que é do destino, são ensinamentos que estão na essência do estoicismo e do epicurismo, e também têm a ver com o cinismo e o ceticismo – todos eles ramificações de um mesmo caudal que se dedicava a contestar o idealismo dogmático de Platão e Aristóteles na Grécia Antiga.

Essas filosofias eram um modo de vida. Não brilhavam por fazer grandes construções teóricas, mas por seus ensinamentos para melhorar a vida de cada um. Eram mais socráticas (“a vida é uma preparação para a morte”), mais pedagógicas que metafísicas. Filosofar não era uma especulação abstrata, um devaneio, mas uma busca por respostas práticas para as questões da vida diária. Nisso residiria a felicidade.

Uns, pedagógicos, produziam filoso- fias para a existência; os metafísicos, para a alma, que habitava em outras longitudes. No século 20, a última grande filosofia da existência imitou os pedagógicos: fez um sucesso estrondoso menos por seu edifício teórico do que por sua literatura e dramaturgia. Como romancista em A náusea e teatrólogo em Entre quatro paredes, Jean-Paul Sartre deixou mais ensinamentos para o dia a dia do que como filósofo no monumental O ser e o nada, e isso explica em grande parte sua popularidade em todo o Ocidente por quase 40 anos. Foi na literatura e no teatro que ele mostrou como viver o existencialismo. Havia, nisso, um sentido utilitário, por mais inútil que lhe parecesse a existência humana, por ele definida, na última linha de “O Ser e o Nada”, como uma “passion inutile”. Depois dele, morto em 1980, os filósofos alternativos da Antiguidade reaparecem para suprir em parte essa falta. Embora tenham pouco a ver com o pensamento sartriano, mostram algumas incríveis coincidências.

O Epicurismo

Ansiedade e estresse já eram problemas sérios na época de Epicuro (341-270 a.C.). Tal como hoje, ninguém sabia o dia de amanhã e a incerteza era causa de angústia e sofrimento. O epicurismo propunha uma nova atitude contra essa dor: procurar a felicidade. E a felicidade, para Epicuro, não estava nem no luxo nem nos prazeres da vida, mas no que ele chamou de tranquilidade da alma, que significa não sentir nem dor nem perturbação.

E como conquistar essa tranquilidade? Eliminando a principal causa de angústia: o medo. Para Epicuro, o homem tem basicamente dois tipos de medo: o de Deus e o da morte. Ambos são vencidos pela razão. O primeiro, com a compreensão de que se os deuses existem, eles têm outras coisas com que se ocupar em seus próprios planos, muito mais elevados do que o humano. Não faz sentido, para Epicuro, o divino julgar ou tratar de assuntos que cabem aos mortais pensar e resolver. Portanto, não se deve temê-los porque estão muito distantes de nós.

Resta a morte. Antes de tudo, Epicuro avisa que não é possível viver sem a ideia da morte. Tirá-la de nossa cabeça é impossível, pois se trata de uma realidade inelutável que vemos ocorrer com todos e tudo à nossa volta. Mas podemos chegar à tranquilidade diante dela compreendendo que a morte é simplesmente o nosso fim. Primeiro, de nossas atividades vitais. Segundo, de nossa própria alma, que se desagrega ao retirar-se do corpo que habitou, pois não pode sobreviver sem seu invólucro protetor. Portanto, não se deve temer a morte porque nada mais existe após o fim derradeiro. Só os deuses, se existem, vivem a vida eterna. Jamais morrem, e isso deve ser um problema para eles. Para nós, é uma falsa questão.

Epicuro não se pergunta de onde vem, então, a alma que vive em nós. É uma questão difícil, e a felicidade não quer saber de problemas. Ela consiste em não nos desesperarmos com nosso fim, mas em transformar a vida em uma festa. Não parece a Paris dos anos 20? E que tal compreender que, sem ter o que temer (dos deuses) e o que esperar (após a morte), somos então seres totalmente livres? Não parece a Paris de Jean-Paul Sartre e dos existencialistas?

Livres da angústia, podemos finalmente nos dedicar a viver o presente com todas as nossas forças. Somos mortais, mas felizes. Só que, para nos mantermos assim, precisamos distinguir muito bem nossos desejos. Há os que são naturais e precisam ser satisfeitos, como comer, beber, copular; os que são naturais, mas não necessários, como as fantasias culinárias e sexuais; e os que são vãos, como a riqueza, o poder, as honrarias, a glória. As duas últimas categorias podemos evitar, em nome da nossa felicidade. Não é que Epicuro parece um asceta? A imagem do libertino é um engano, de fato, mas Epicuro tem o mérito de inocentar o desejo, e isso o distingue de Platão e Aristóteles, para quem o desejo é um mal. Epicuro recomenda moderação, e é só.

Fonte: Revista Planeta - http://www.terra.com.br/revistaplaneta/


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"Só sei que nada sei".


Foto de Miro Martins.

Sócrates > Sócrates era considerado pelos seus contemporâneos um dos homens mais sábios e inteligentes. Em seus pensamentos, demonstra uma necessidade grande de levar o conhecimento para os cidadãos gregos. Seu método de transmissão de conhecimentos e sabedoria era o diálogo. Através da palavra, o filósofo tentava levar o conhecimento sobre as coisas do mundo e do ser humano.

Conhecemos seus pensamentos e ideias através das obras de dois de seus discípulos: Platão e Xenofontes. Infelizmente, Sócrates não deixou por escrito seus pensamentos.

Sócrates não foi muito bem aceito por parte da aristocracia grega, pois defendia algumas ideias contrárias ao funcionamento da sociedade grega. Criticou muitos aspectos da cultura grega, afirmando que muitas tradições, crenças religiosas e costumes não ajudavam no desenvolvimento intelectual dos cidadãos gregos.

Em função de suas ideias inovadoras para a sociedade, começa a atrair a atenção de muitos jovens atenienses. Suas qualidades de orador e sua inteligência, também colaboraram para o aumento de sua popularidade. Temendo algum tipo de mudança na sociedade, a elite mais conservadora de Atenas começa a encarar Sócrates como um inimigo público e um agitador em potencial. Foi preso, acusado de pretender subverter a ordem social, corromper a juventude e provocar mudanças na religião grega. Em sua cela, foi condenado a suicidar-se tomando um veneno chamado cicuta, em 399 AC.

Algumas frases e pensamentos atribuídos ao filósofo Sócrates:

- A vida que não passamos em revista não vale a pena viver.
- A palavra é o fio de ouro do pensamento.
- Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.
- É melhor fazer pouco e bem, do que muito e mal.
- Alcançar o sucesso pelos próprios méritos. Vitoriosos os que assim procedem.
- A ociosidade é que envelhece, não o trabalho.
- O início da sabedoria é a admissão da própria ignorância.
- Chamo de preguiçoso o homem que podia estar melhor empregado.
- Há sabedoria em não crer saber aquilo que tu não sabes.
- Não penses mal dos que procedem mal; pense somente que estão equivocados.
- O amor é filho de dois deuses, a carência e a astúcia.
- A verdade não está com os homens, mas entre os homens.
- Quatro características deve ter um juiz: ouvir cortesmente, responder sabiamente, ponderar prudentemente e decidir imparcialmente.
- Quem melhor conhece a verdade é mais capaz de mentir.
- Sob a direção de um forte general, não haverá jamais soldados fracos.
- Todo o meu saber consiste em saber que nada sei.
- Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo de Deus.

http://www.youtube.com/watch?v=Zv8KEH_2zqw Dica de vídeo.
Vale a pena.


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O Surgimento da Filosofia.


Grafite de Gustavo Cortelazzi.
"Os primeiros filósofos gregos"
Os primeiros filósofos gregos tentaram entender o mundo com o uso da razão, sem recorrer à religião, à revelação, à autoridade ou à tradição. Além disso, também eram professores que ensinavam seus discípulos a usar a razão e a pensar por si mesmos. Eles os encorajavam a discutir, argumentar, debater e propor ideias próprias.
Tendo vivido entre o século 6 a.C e princípios do século 5 a.C., esses filósofos mais antigos, dos quais poucos conhecimentos foram conservados através dos tempos, são também chamados de pré-socráticos, por que antecederam Sócrates, o primeiro filósofo cujo método de pensar, bastante sistemático, foi efetivamente preservado para a posteridade.
Não se pode, porém, deixar de examinar, ainda que brevemente, o pensamento dos pré-socráticos. Ainda que só nos restem fragmentos de suas ideias, elas são surpreendentes. E não só por constituírem uma grande novidade para a época em que elas foram formuladas, mas também porque muitas delas ou conservam grande atualidade ou encontraram ressonância em filósofos de milênios posteriores, inclusive nossos contemporâneos.
Tales e Anaximandro
Para começar, pode-se mencionar Tales, da cidade de Mileto, na Ásia Menor (atual Turquia). As datas de seu nascimento e morte são ignoradas, mas sabe-se que ele atuou na década de 580 a.C. Tales de Mileto se perguntou: "De que é feito o mundo?". Chegou à conclusão de que ele era feito de um único elemento: a água. Afinal, todas as coisas precisam de água para viver, é a chuva que faz as plantas brotarem da terra e toda porção de terra termina na água.
Hoje sabemos que a resposta de Tales estava incorreta, mas não de todo. Na verdade, a física moderna chegou a uma conclusão semelhante à do antigo filósofo ao mostrar que todas as coisas materiais são redutíveis à energia.
Um discípulo de Tales, nascido na mesma cidade, Anaximandro (610 a.C.-546 a.C) desenvolveu outro raciocínio. Se a Terra fosse sustentada pela água, esta, por sua vez, deveria ser sustentada por outra coisa e assim sucessivamente, até o infinito. Disso, Anaximandro concluiu que a Terra não era sustentada por nada, mas um objeto sólido que flutuava no espaço e se mantinha em sua posição graças a sua equidistância em relação a tudo mais.
Heráclito e Pitágoras
Na mesma época, outro filósofo de outra cidade grega, Heráclito de Éfeso, desenvolveu dois raciocínios extremamente originais. Primeiro, a da unidade entre os opostos. Heráclito percebeu que o caminho para subir uma montanha é o mesmo para descer. Ou seja, trata-se de um mesmo caminho, embora ela conduza a direções opostas. A partir daí, o filósofo concluiu que a realidade surge justamente da contradição.
Por isso, a realidade é instável e está em constante movimento. "Tudo flui", dizia Heráclito. Com isso, queria dizer que nada é permanente. Ele comparava as coisas a uma chama que parece um objeto, mas é muito mais um processo. Para ele, portanto, a mudança é a lei da vida e do universo.
Pouco antes de Heráclito, outro filósofo também se destacava na cidade grega de Samos: Pitágoras. Supõe-se que ele tenha inventado o termo "filosofia", pois se definia como um amigo (filo) do saber (sofia). Com certeza, sabe-se que ele relacionou a filosofia à matemática, acreditando que a linguagem matemática poderia expressar com maior precisão as estruturas do universo.
Você tem dúvidas de que ele estava certo? Claro que não. A relação matemática/filosofia vingou, e chegou até física e aos filósofos contemporâneos como Bertrand Russell e Alfred Whitehead. Antes de seguir adiante, não se pode esquecer que Pitágoras é o autor do famosíssimo teorema que leva seu nome: num triângulo retângulo, a hiponenusa ao quadrado é igual à soma do quadrado dos catetos. Aliás, foi Pitágoras o inventor da ideia de "quadrado" e "cubo" de um número, traçando uma relação, até então inexistente, entre geometria e aritmética.
Xenófanes e Parmênides
Na última metade do século 6 a.C., pontificou outro grande filósofo: Xenófanes de Colofão. Para ele, o conhecimento é uma criação humana. Nós jamais conhecemos a verdade, mas vamos nos aproximando dela, à medida que aprendemos mais e vamos mudando nossas ideias, à luz do que aprendemos.
Nesse sentido, conhecer é fazer conjeturas que devem ser substituídas, quando se revelarem ultrapssadas. Essa ideia foi a chave que permitiu ao filósofo contemporâneo Karl Popper estabelecer os limites da ciência.
Na primeira metade do século 5 a.C., Parmênides, um discípulo de Xenófanes, desenvolveu uma reflexão contrária à de Heráclito. Parmênides considerou que é uma contradição afirmar que "nada existe". Para ele, tudo sempre existiu. O mundo, portanto, não tem princípio, nem foi criado: ele é eterno e imperecível. "Tudo é um", dizia Parmênides, e o que parece mudança ocorre, na verdade, no interior de um sistema fechado e imutável.
Empédocles e Demócrito
Sem discordar de Parmênides, Empédocles sustentava que tudo era composto de quatro elementos essenciais e perenes: terra, água, ar e fogo. Essa ideia influenciou o pensamento ocidental até o renascimento e a ideia dos quatro elementos é bastante conhecida ainda hoje, mesmo por quem não conhece história da filosofia.
Para terminar esse breve panorama do pensamento pré-socrático, é importante mencionar os filósofos Leucipo e Demócrito, chamados de "atomistas". Foram eles que teorizaram que se fôssemos reduzindo, por meio de cortes, qualquer coisa, chegaríamos a um momento em que a coisa estaria tão diminuta que não poderia ser cortada. Ou seja, chegaríamos ao átomo ("a" = prefixo de negação; "tomo" = cortar).
Segundo ambos, tudo que existe são átomos e espaço. As coisas são diferentes entre si por que são diferentes combinações de átomos no espaço. Mesmo que hoje saibamos que o átomo pode ser subdividido em partículas menores do que ele mesmo, não há como negar o avanço da concepção de Leucipo e Demócrito, não é mesmo?
Enfim, os pré-socráticos refletiram sobre a natureza do mundo procurando explicá-lo a partir de sua própria natureza e, se muito do que pensarem pode ser considerado um absurdo hoje em dia, seu pensamento inegavelmente foi o ponto de partida para o entendimento racional do mundo.

Sugestão de leituras:-
- "O mundo de Sofia - romance da história da filosofia", de Jostein Gaarder (Companhia das Letras) é uma história da filosofia escrita especialmente para adolescentes. Quem quiser se aprofundar pelo tema, lendo um livro breve e muito atualizado, pode ler "Paixão pelo Saber - uma Breve História da Filosofia", de Robert C. Solomon e Kathleen M. Higgins (Civilização Brasileira.

Anglo Taquaral Campinas.


Grafite de Gustavo Cortelazzi.

Fonte: Filosofia Construindo o Pensar, volume único. Editora Escala.
Mito: relato fabuloso, de carater religioso, que diz respeito a seres que personificam agentes naturais. O mito tende a fornecer uma resposta e uma explicação satisfatórias. Possui igualmente uma função que assegura a coesão social.
As formas de conhecimentos são:
* O conhecimento mitológico, o conhecimento filosófico,o conhecimento pelo senso comum (bom senso), o conhecimento científico e o conhecimento pela arte.
Algumas das áreas de atuação da Filosofia são:
* Epistemologia (o conhecimento), a Ética (os valores da vida), a Estética ( a beleza), a Política (o poder) e a Lógica (raciocínio).

sábado, 17 de abril de 2010

Magia?


Olá, querido pensador! Hoje trataremos de um tema diferente do que temos tratado ultimamente: magia e misticismo.
Filosoficamente, o mecanismo de um ato mágico é o mecanismo de uma pessoa causar um efeito no mundo físico através de uma causa transcendental. A mudança causada no mundo físico deve acontecer através da vontade do agente, e não de seus movimentos físicos. Em outras palavras, o efeito deve advir da mente do agente, não de suas ações físicas.
Na teoria da magia, o efeito que advém diretamente da mente do agente é o mais alto grau entre os atos de magia. Existem três classes de magia, três estágios de progressão para o status de mago: o primeiro é magia por encantamento - ou por palavras recitadas, o segundo é magia por movimentos manuais e o terceiro é magia por pensamento.

Do Mito à Razão...


A mitologia grega foi descrita pelos poetas Homero e Hesíodo no século oito antes de Cristo. Hesíodo faz uma sistematização completa na sua obra Teogonia, expondo todas as ramificações da árvore genealógica. A mitologia, vista à luz da filosofia, é uma tentativa irracional de explicar o mundo natural. O homem diviniza um aspecto da natureza por desconhecê-lo e também suas causas. O temor através desse desconhecimento faz com que o homem crie um deus para que cuide daquele aspecto natural. Essa fórmula funciona em todos sistemas politeístas: a mitologia africana, celta, hindu, egípcia, entre outras.

A advinda da filosofia - século sexto antes de Cristo - com Tales foi uma ruptura com a forma de explicação mítica: agora os filósofos queriam chegar em princípios gerais do universo natural de uma forma racional: Tales reduz tudo à água e Heráclito ao fogo, por exemplo. Aí nasce a filosofia.

mito da caverna

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Aulas em Vinhedo

1º ano do E.M.

Platão > "As sombras da vida".

"O Mundo das idéias".

2º ano do E.M.

Julgamento > Estupro.
Defesa, Acusação e Jurados > Culpada.

OK

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Aulas no Anglo de Vinhedo.


Foi SHOW!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
AMO VOCÊS!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Viver sem grilos.

Bobby McFerrin - Don't Worry Be Happy (YouTube)

Tempo!


http://www.youtube.com/watch?v=ntm1YfehK7U

sábado, 3 de abril de 2010

Ramana Maharishi - Um Gigante-Menino nas flores do eterno

Ramana Maharishi - Um Gigante-Menino nas flores do eterno

Aristóteles > Meu ídolo.

Aristóteles
O primeiro lógico via na escola o caminho para a vida pública e o exercício da ética.
De todos os grandes pensadores da Grécia antiga, Aristóteles (384-322 a.C.) foi o que mais influenciou a civilização ocidental. Até hoje o modo de pensar e produzir conhecimento deve muito ao filósofo. Foi ele o fundador da ciência que ficaria conhecida como lógica e suas conclusões nessa área não tiveram contestação alguma até o século 17. Sua importância no campo da educação também é grande, mas de modo indireto. Poucos de seus textos específicos sobre o assunto chegaram a nossos dias. A contribuição de Aristóteles para o ensino está principalmente em escritos sobre outros temas.

As principais obras de onde se pode tirar informações pedagógicas são as que tratam de política e ética. "Em ambos os casos o objetivo final era obter a virtude", diz Carlota Boto, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. "Em suas reflexões sobre ética, Aristóteles afirma que o propósito da vida humana é a obtenção do que ele chama de vida boa. Isso significava ao mesmo tempo vida ‘do bem’ e vida harmoniosa." Ou seja, para Aristóteles, ser feliz e ser útil à comunidade eram dois objetivos sobrepostos, e ambos estavam presentes na atividade pública. O melhor governo, dizia ele, seria "aquele em que cada um melhor encontra o que necessita para ser feliz".

Cultivo da perfeição
"A educação, para Aristóteles, é um caminho para a vida pública", prossegue Carlota. Cabe à educação a formação do caráter do aluno. Perseguir a virtude significaria, em todas as atitudes, buscar o "justo meio". A prudência e a sensatez se encontrariam no meio-termo, ou medida justa – "o que não é demais nem muito pouco", nas palavras do filósofo.
Um dos fundamentos do pensamento aristotélico é que todas as coisas têm uma finalidade. É isso que, segundo o filósofo, leva todos os seres vivos a se desenvolver de um estado de imperfeição (semente ou embrião) a outro de perfeição (correspondente ao estágio de maturidade e reprodução). Nem todos os seres conseguem ou têm oportunidade de cumprir o ciclo em sua plenitude, porém. Por ter potencialidades múltiplas, o ser humano só será feliz e dará sua melhor contribuição ao mundo se desfrutar das condições necessárias para desenvolver o talento. A organização social e política, em geral, e a educação, em particular, têm a responsabilidade de fornecer essas condições.
Ninguém nasce virtuoso

A virtude, para Aristóteles, é uma prática e não um dado da natureza de cada um, tampouco o mero conhecimento do que é virtuoso, como para Platão (427-347 a.C.). Para ser praticada constantemente, a virtude precisa se tornar um hábito. Embora não se conheça nenhum estudo de Aristóteles sobre o assunto, é possível concluir que o hábito da virtude deve ser adquirido na escola.

Grande parte da obra que originou o legado aristotélico se desenvolveu em oposição à filosofia de Platão, seu mestre e fundador da Academia ateniense, que Aristóteles freqüentou durante duas décadas. Posteriormente, ele fundaria uma escola própria, o Liceu. Uma das duas grandes inovações do filósofo em relação ao antecessor foi negar a existência de um mundo supra-real, onde residiriam as idéias. Para Aristóteles, ao contrário, o mundo que percebemos é suficiente, e nele a perfeição está ao alcance de todos os homens. A oposição entre os dois filósofos gregos – ou entre a supremacia das idéias (idealismo) ou das coisas (realismo) – marcaria para sempre o pensamento ocidental.
Imitação, o princípio do aprendizado
Aristóteles não era, como Platão, um crítico da sociedade e da democracia de Atenas. Ao contrário, considerava a família, como se constituía na época, o núcleo inicial da organização das cidades e a primeira instância da educação das crianças. Atribuía, no entanto, aos governantes e aos legisladores o dever de regular e vigiar o funcionamento das famílias para garantir que as crianças crescessem com saúde e obrigações cívicas. Por isso, o Estado deveria também ser o único responsável pelo ensino. Na escola, o princípio do aprendizado seria a imitação. Segundo ele, os bons hábitos se formavam nas crianças pelo exemplo dos adultos. Quanto ao conteúdo dos estudos, Aristóteles via com desconfiança o saber "útil", uma vez que cabia aos escravos exercer a maioria dos ofícios, considerados indignos dos homens livres.
A verdade científica

A segunda inovação de Aristóteles foi no campo da lógica. De acordo com o filósofo, determinar uma verdade comum a todos os componentes de um grupo de coisas é a condição para conceber um sistema teórico. Para a construção de tal conhecimento, Aristóteles não se satisfez com a dialética de Platão, segundo a qual o caminho para chegar à verdade era a depuração dos argumentos e pontos de vista por intermédio do diálogo.

Aristóteles quis criar um método mais seguro e desenvolveu o sistema que ficou conhecido como silogismo. Ele consiste de três proposições – duas premissas e uma conclusão que, para ser válida, decorre das duas anteriores necessariamente, sem que haja outra opção. Exemplo clássico de silogismo é o seguinte. Todos os homens são mortais. Sócrates é um homem. Portanto, Sócrates é mortal. Isso não basta, porém, para que a lógica se torne ciência. Um silogismo precisa partir de verdades, como as contidas nas duas proposições iniciais. Elas não se sujeitam a um raciocínio que as demonstre. Demonstram-se a si mesmas na realidade e são chamadas de axiomas. A observação empírica – isto é, a experiência do real – ganha, assim, papel central na concepção de ciência de Aristóteles, em contraste com o pensamento de Platão.
Para pensar

Aristóteles acreditava que educar para a virtude era também um modo de educar para viver bem – e isso queria dizer, entre outras coisas, viver uma vida prazerosa. No mundo atual, nem sempre se vê compatibilidade entre a virtude e o prazer. Ainda assim, você acredita que seja possível desenvolver em seus alunos uma consciência ética e, ao mesmo tempo, a capacidade de apreciar as coisas boas da vida?
Biografia

Aristóteles nasceu em 384 a.C. em Estagira, na Macedônia (então sob influência grega e onde o grego era a língua predominante), filho de um médico. Aos 17 anos foi enviado à Academia de Platão, em Atenas, onde estudou e produziu filosofia durante 20 anos – parte de sua obra no período tem o objetivo de atacar a escola rival, de Isócrates, segundo a qual a finalidade do ensino era levar os alunos a dominar a retórica para serem capazes de defender qualquer ponto de vista, dependendo do interesse. Na Academia, a finalidade da educação era alcançar a sabedoria. Com a morte de Platão, em 347 a.C., Aristóteles mudou-se para Assos, na atual Turquia, possivelmente decepcionado por não ter sido escolhido para substituir o mestre na direção da Academia. Em 343 a.C., foi chamado por Felipe II, da Macedônia, para educar seu filho, Alexandre, e permaneceu na função durante vários anos, até que o pupilo começou a conquistar um vasto império (que incluía a Grécia, anexada por seu pai). De volta a Atenas, Aristóteles fundou a própria escola, o Liceu, desenvolvendo uma obra marcadamente antiplatônica. Depois da morte de Alexandre, Aristóteles passou a ser perseguido por ter colaborado na educação do imperador macedônio. Refugiou-se em Calcis, onde morreu em 322 a.C.

Ainda Platão...

Para Platão a formação dos cidadãos começaria antes mesmo do nascimento, pelo planejamento eugênico da procriação. As crianças deveriam ser tiradas dos pais e enviadas para o campo, uma vez que Platão considerava corruptora a influência dos mais velhos. Até os 10 anos, a educação seria predominantemente física e constituída de brincadeiras e esporte. A idéia era criar uma reserva de saúde para toda a vida. Em seguida, começaria a etapa da educação musical (abrangendo música e poesia), para se aprender harmonia e ritmo, saberes que criariam uma propensão à justiça, e para dar forma sincopada e atrativa a conteúdos de Matemática, História e Ciência. Depois dos 16 anos, à música se somariam os exercícios físicos, com o objetivo de equilibrar força muscular e aprimoramento do espírito.

Aos 20 anos, os jovens seriam submetidos a um teste para saber que carreira deveriam abraçar. Os aprovados receberiam, então, mais dez anos de instrução e treinamento para o corpo, a mente e o caráter. No teste que se seguiria, os reprovados se encaminhariam para a carreira militar e os aprovados para a filosofia – neste caso, os objetivos dos estudos seriam pensar com clareza e governar com sabedoria. Aos 35 anos, terminaria a preparação dos reis-filósofos. Mas ainda estavam previstos mais 15 de vida em sociedade, testando os conhecimentos entre os homens comuns e trabalhando para se sustentar. Somente os que fossem bem-sucedidos se tornariam governantes ou "guardiães do Estado".

Para pensar
Platão acreditava que, por meio do conhecimento, seria possível controlar os instintos, a ganância e a violência. O acesso aos valores da civilização, portanto, funcionaria como antídoto para todo o mal cometido pelos seres humanos contra seus semelhantes. Hoje poucos concordam com isso; a causa principal foram as atrocidades cometidas pelos regimes totalitários do século 20, que prosperaram até em países cultos e desenvolvidos, como a Alemanha. Por outro lado, não há educação consistente sem valores éticos. Você já refletiu sobre essas questões? Até que ponto considera a educação um instrumento para a formação de homens sábios e virtuosos?

Biografia

Platão nasceu por volta de 427 a.C. em uma família aristocrática de Atenas. Quando tinha cerca de 20 anos, aproximou-se de Sócrates, por quem tinha grande admiração. Como a maioria dos jovens de sua classe, quis entrar na política. Contudo, a oligarquia e a democracia lhe desagradaram. Com a condenação de Sócrates à morte, Platão decidiu se afastar de Atenas e saiu em viagem pelo mundo. Numa de suas últimas paradas, esteve na Sicília, onde fez amizade com Dion, cunhado do rei de Siracusa, Dionísio I. De volta a Atenas, com cerca de 40 anos, Platão fundou a Academia, um instituto de educação e pesquisa filosófica e científica que rapidamente ganhou prestígio. Três décadas depois, ele foi convidado por Dion a viajar a Siracusa para educar seu sobrinho Dionísio II, que se tornara imperador. A missão foi frustrada por intrigas políticas que terminaram num golpe dado por Dion. Platão morreu por volta de 347 a.C. Já era um homem admirado em toda Atenas.